Skip to content

A metafísica de Darwin – Dan Dennett e a ideia perigosa

May 21, 2010

Palavras não descreveriam o impacto que a filosofia e as ciências sofreram com a publicação, em 1859, do livro A Origem das Espécies, do nem mais tão jovem cientista inglês Charles Darwin. Toda a biologia teve de ser reestruturada e pensada de uma nova ótica. As ciências conheceram um dos primeiros sistemas verdadeiramente plausíveis capazes de explicar a inimaginável complexidade da natureza viva de uma perspectiva histórica, tomando como ponto de partida estruturas absurdamente simples, até chegar à complexidade que conhecemos e sabemos que existe. Mas, segundo Dan Dennett, em sua magistral obra Darwin’s Dangerous Idea (“A Perigosa Idéia de Darwin”, no Brasil, lançada pela editora Rocco mas atualmente esgotada), os filósofos, desde então, raramente compreenderam de forma real e completa todo o alcance e elegância do darwinismo. Deve-se se livrar de todo o lixo de que dispúnhamos para explicar o fenômeno da vida, todas as concepções equivocadas e resquícios teológicos para que cheguemos a uma compreensão racional e muito mais plena do que nossa vida significa e em que Darwin se relaciona com isso.

Dennett inicia o livro com a indagação do porquê de tudo, no breve e belo capítulo Tell me Why; evoca, assim, um discurso inicialmente quase infantil, mas com abordagem absolutamente adulta e obviamente relevante, sabemos, pois trata-se de um questionamento onipresente na vida humana, ainda que jamais plenamente resolvido. Talvez Freud explique. Provavelmente não. De qualquer modo, somos levados a uma torrente interminável de questionamentos do tipo ao longo da leitura, sempre com sagazes e darwinianas soluções a respeito. Dennett mostra-nos que nossa responsabilidade moral ao longo da evolução se desenvolveu a partir de correlatos muito mais simples, como a reciprocidade “altruística” (que dificilmente é verdadeiramente moral), desembocando em concepções morais muito mais sofisticadas, resultado de nosso crescente progresso intelectual na experiência no mundo; como seres humanos, aprendemos a pensar de fato, a esquivarmo-nos dos ditames evolutivos brutos. Tornamo-nos entes intelectualmente quase que independentes de nosso implacável meio natural.

Nascemos da natureza, a moral de nós, de nós concepções muito mais sofisticadas acerca da vida e o Universo e construímos a religião natural, ou teologia, para explicar a origem de tudo. Pareceu óbvio por milênios… Tínhamos vindo de planejamento inteligente, inteligentíssimo, de alguma criatura de poder inconcebível por tolas mentes humanas. É claro! O que mais explicaria a complexidade do mundo? E, de fato, o que mais poderia explicar as origens do Universo, de fenômenos complexos como as marés ou chuvas, o aparecimento dos seres humanos e seu poder, sua moral…? A inteligência suprema. Aliás, essa foi uma das mais interessantes e reveladoras dentre as primeiras críticas feitas a Darwin no início da divulgação de sua teoria evolutiva: a substituição como força criadora da Inteligência absoluta por Ignorância absoluta! Como poderia? Faria sentido? Hoje sabemos que faz, que, de pequenos pedaços inanimados, nasceram universos inteiros, coisas vivas, pulsantes, pensantes, com sentimentos, ideias, capazes inclusive de compreender a si mesmos e à Natureza ao seu redor e da qual era (são) inegavelmente filhos. Eis a perigosa ideia de Darwin: o mundo não foi feito para nós, não temos em nós quaisquer componentes milagrosos, sobrenaturais. Deus é inteligência tão espalhada pelo espaço e pelo tempo que talvez nem mereça essa denominação.

Mas há amor, há inteligência, conhecimento possível, e esse é o Porquê que move o homem e regenera as suas feridas, aliás, seu orgulho ferido ao ser destituído do posto de semideidade criada por Deus. Temos uns aos outros; sim, somos apenas “grandes mamíferos cerebrudos” , nas palavras de Dennett, o que indica apenas que somos seres naturais, nem por isso necessariamente menores. Cosmicamente menos (ou nada) importantes, possivelmente. Mas para a nossa vida e a nossa mente isso nada deve significar. Dennett dizia que O darwinismo muda tudo e mantém tudo intacto. Isso é verdadeiro, apesar de a árvore da vida ter-se constituído de baixo. Eis a ideia perigosa, mas elegante, fascinante e profundamente transformadora da evolução darwiniana.

Advertisements

From → Uncategorized

One Comment
  1. Eduardo "The Commentator" Pietraroia permalink

    De fato uma simples noção, concebida por darwin, que consegue, sem muito esforço, mudar todas as nossas concepções, e, assim, gerar um impacto enorme nas vidas de todos aqueles que a compreendem,
    Um ótimo texto, Felipera! Muito bom mesmo….
    Abraçao!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: