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De Albert Camus, em O homem revoltado

“(…) Neste sentido, cada qual procura fazer de sua vida uma obra de arte. Desejamos que o amor dure e sabemos que ele não dura; se até mesmo, por milagre, ele tivesse que durar toda uma vida, estaria ainda incompleto. Talvez, nesta insaciável necessidade de durar, compreenderíamos melhor o sofrimento terrestre, se o soubéssemos eterno. Parece que as grandes almas, às vezes, ficam menos apavoradas com o sofrimento do que com o fato de ele não durar. Na falta de uma felicidade inesgotável, um longo sofrimento constituiria ao menos um destino. Mas não é assim, e nossas piores torturas um dia chegarão ao fim. Certa manhã, após tanto desespero, uma vontade irreprimível de viver vai nos anunciar que tudo acabou e que o sofrimento não tem mais sentido que a felicidade. (…)

Na terra cruel em que os amantes às vezes morrem separados e nascem sempre divididos, a posse total de um ser, a comunhão absoluta por toda uma vida é uma exigência impossível. O desejo de posse é a tal ponto insaciável que ele pode sobreviver ao próprio amor. (…) Esta é a verdadeira revolta. Aqueles que não exigiram, pelo menos uma vez, a virgindade absoluta dos seres e do mundo, que não tremeram de nostalgia e de impotência diante de sua impossibilidade, aqueles que, então, perpetuamente remetidos a sua nostalgia pelo absoluto, não se destruíram ao tentar amar pela metade, não podem compreender a realidade da revolta e seu furor de destruição. Mas os seres escapam sempre e nós lhes escapamos também; eles não têm contornos bem-delineados. A vida, deste ponto de vista, é sem estilo. Ela não é senão um movimento em busca de uma forma sem nunca encontrá-la. O homem, assim dilacerado, persegue em vão essa forma que lhe daria os limites entre os quais ele seria soberano. Que uma única coisa viva tenha sua forma neste mundo, e ele estará reconciliado!”

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A metafísica de Darwin – Dan Dennett e a ideia perigosa

Palavras não descreveriam o impacto que a filosofia e as ciências sofreram com a publicação, em 1859, do livro A Origem das Espécies, do nem mais tão jovem cientista inglês Charles Darwin. Toda a biologia teve de ser reestruturada e pensada de uma nova ótica. As ciências conheceram um dos primeiros sistemas verdadeiramente plausíveis capazes de explicar a inimaginável complexidade da natureza viva de uma perspectiva histórica, tomando como ponto de partida estruturas absurdamente simples, até chegar à complexidade que conhecemos e sabemos que existe. Mas, segundo Dan Dennett, em sua magistral obra Darwin’s Dangerous Idea (“A Perigosa Idéia de Darwin”, no Brasil, lançada pela editora Rocco mas atualmente esgotada), os filósofos, desde então, raramente compreenderam de forma real e completa todo o alcance e elegância do darwinismo. Deve-se se livrar de todo o lixo de que dispúnhamos para explicar o fenômeno da vida, todas as concepções equivocadas e resquícios teológicos para que cheguemos a uma compreensão racional e muito mais plena do que nossa vida significa e em que Darwin se relaciona com isso.

Dennett inicia o livro com a indagação do porquê de tudo, no breve e belo capítulo Tell me Why; evoca, assim, um discurso inicialmente quase infantil, mas com abordagem absolutamente adulta e obviamente relevante, sabemos, pois trata-se de um questionamento onipresente na vida humana, ainda que jamais plenamente resolvido. Talvez Freud explique. Provavelmente não. De qualquer modo, somos levados a uma torrente interminável de questionamentos do tipo ao longo da leitura, sempre com sagazes e darwinianas soluções a respeito. Dennett mostra-nos que nossa responsabilidade moral ao longo da evolução se desenvolveu a partir de correlatos muito mais simples, como a reciprocidade “altruística” (que dificilmente é verdadeiramente moral), desembocando em concepções morais muito mais sofisticadas, resultado de nosso crescente progresso intelectual na experiência no mundo; como seres humanos, aprendemos a pensar de fato, a esquivarmo-nos dos ditames evolutivos brutos. Tornamo-nos entes intelectualmente quase que independentes de nosso implacável meio natural.

Nascemos da natureza, a moral de nós, de nós concepções muito mais sofisticadas acerca da vida e o Universo e construímos a religião natural, ou teologia, para explicar a origem de tudo. Pareceu óbvio por milênios… Tínhamos vindo de planejamento inteligente, inteligentíssimo, de alguma criatura de poder inconcebível por tolas mentes humanas. É claro! O que mais explicaria a complexidade do mundo? E, de fato, o que mais poderia explicar as origens do Universo, de fenômenos complexos como as marés ou chuvas, o aparecimento dos seres humanos e seu poder, sua moral…? A inteligência suprema. Aliás, essa foi uma das mais interessantes e reveladoras dentre as primeiras críticas feitas a Darwin no início da divulgação de sua teoria evolutiva: a substituição como força criadora da Inteligência absoluta por Ignorância absoluta! Como poderia? Faria sentido? Hoje sabemos que faz, que, de pequenos pedaços inanimados, nasceram universos inteiros, coisas vivas, pulsantes, pensantes, com sentimentos, ideias, capazes inclusive de compreender a si mesmos e à Natureza ao seu redor e da qual era (são) inegavelmente filhos. Eis a perigosa ideia de Darwin: o mundo não foi feito para nós, não temos em nós quaisquer componentes milagrosos, sobrenaturais. Deus é inteligência tão espalhada pelo espaço e pelo tempo que talvez nem mereça essa denominação.

Mas há amor, há inteligência, conhecimento possível, e esse é o Porquê que move o homem e regenera as suas feridas, aliás, seu orgulho ferido ao ser destituído do posto de semideidade criada por Deus. Temos uns aos outros; sim, somos apenas “grandes mamíferos cerebrudos” , nas palavras de Dennett, o que indica apenas que somos seres naturais, nem por isso necessariamente menores. Cosmicamente menos (ou nada) importantes, possivelmente. Mas para a nossa vida e a nossa mente isso nada deve significar. Dennett dizia que O darwinismo muda tudo e mantém tudo intacto. Isso é verdadeiro, apesar de a árvore da vida ter-se constituído de baixo. Eis a ideia perigosa, mas elegante, fascinante e profundamente transformadora da evolução darwiniana.

Apresentação e esclarecimentos iniciais

Olá, pessoal, quem quer que venha a ler isso. Gostaria de saudar a todos e dar início a um blog onde pretendo externar, principalmente, críticas sobre filmes, e algumas outras ideias que eu achar valiosas e\ou interessantes, especialmente relacionadas a ciência e cultura.

Só para esclarecer, para quem quiser saber: o nome do blog, Heima, vem de um belíssimo trabalho em vídeo da banda islandesa Sigur Rós; a palavra, em islandês, quer dizer casa, lar. Dei o nome pois achei simples, de boa sonoridade, que se relaciona com uma banda de trabalho bastante belo e consistente, além de ter um significado bastante aberto e vago, o que – pelo menos no caso – é bom.

Espero que essa iniciativa dê certo e que gostem dos textos, abraços a todos, tudo o de melhor.